sexta-feira, dezembro 31

Divagações ao Réveillon

A Natureza, tão boa e tão má. Pelo menos ainda há bons Juízes neste mundo, não é verdade, Gaspari?

O mundo vai girando, mais ou menos que dantes, segundo alguns especialistas. Emudecido, continuo a lamentar o caos, acalantado nos tormentos pela voz de Diana Krall em Fly me To The Moon nesta tarde amena, cujo crepúsculo me arrebata quase toda atenção. O matiz cansado do epílogo da carruagem de Apolo despede-se emoldurado nas paredes de concreto a rodear-me esta paisagem insensata, no mesmo compasso do pulso cansado de guerra. Mesmo assim, rítmico ou não, que ainda pulse em minhas veias.
In Other Words, I love you...
O ano de Dois Mil e Cinco, do Século Vinte e Um, começa reticente, porém com uma boa nova que me aquece mais o coração. Vida nova que chega. Perdoe-me o Mundo que te apresento, mas o amor é tanto que nos solapa o restante do cartesianismo a nortear o raciocínio. E se não tê-lo, como sabê-lo, não é mesmo Poetinha Vina?

Ave! Eu te abraço com os olhos no passado:

"Réquiem de 2002 - Espasmos. É essa a conclusão a que chego em meio às divagações norturnas do último dia do ano. As reminiscências do passado me provam de forma insofismável que somos pequenos átimos de luz na história. Percebo que um punhado de anos são somente dias atrás. Fatos acontecidos há algumas décadas parecem-me semanas apenas. Tudo tão vívido e próximo. Imerso nessas reminiscências nostálgicas. Vidas que transcorrem em alguns meses. Frágil tempo, o que dizer-lhe colosso? E nessa ode ao passado morto, tão vivo, eu pensava nesse diletantismo notívago, o que dizer sobre o tempo. Eis que recordo da ímpar poesia de Soares Feitosa - mentor do instigante Jornal de Poesia, amigo e poeta - Cronômetro Para Piscinas, onde percebo que a arte liberta! Talvez mais do que o desabrochar dos grilhões que nos solapam os devaneios. A arte materializa o encontro que não tive, os caminhos que não percorri, este beijo que eu não te dei. Nesse ambiente cujo ilogismo é concreto, o tempo se arrasta sofregamente. Cronômetro Para Nossas Vidas, o tempo nem sempre rege a razão no que a arte não lhe permite. A arte não cria, apenas materializa ao agregar letras, a dor lancinante do poeta. E dor é também o prazer infinito, como diria Schoppenheauer. E percebo que quando o Poeta Feitosa estava a agrupar as letras que deram causa ao Cronômetro Para Piscinas, no alfarrábio de sua escrivaninha, trazia consigo um sorriso nos lábios, murmurando à cumplicidade alguns arremedos que lhe ditava o Coronel, sentado na cadeira de balanço ao seu lado. E quando lhe faltavam palavras era ajudado pelos seus cúmplices de poesia. E vejo que o Poeta fazia do imaginário esse mundo maravilhoso que só a arte liberta. Assim vivemos no Século Cem de Ésquilo. E agora enquanto digito estes últimos suspiros de palavra, o Coronel me chega e brada, açoitado com a paráfrase - eu ousaria chamar licença poética - desautorizada, um plágio esdrúxulo dum fato que nunca se deu, mas antes que puxe o gatilho da Lügger que sacara da bainha dos algozes da cultura, ele sorri com os lábios cerrados e me diz: "É doutor, só mesmo a arte, só ela..."

Tal qual o vinho, repousa no fundo da arte alguma verdade que buscamos.
Desejo a todos os amigos leitores um feliz 2003.
Além disso, pouca coisa. E la nave va...
"

segunda-feira, dezembro 13

Um Alarme em Pleno Vôo



Naquele momento, dentro do avião, eu percebia angustiado que o mapa de navegação da aeronave mostrava em seu monitor colorido, que estávamos a cruzar o Mar Amarelo, exatamente no interregno entre as Coréias e a China.

Alguns minutos antes, eu olhava preocupado o velocímetro do táxi que nos levava do hotel ao aeroporto distante. O motorista certamente captara com precisão a minha informação de que estávamos atrasados para nosso vôo, motivo pelo qual dirigia como um louco em direção ao Aeroporto Internacional de Incheon, cuja localização é bastante afastada do centro de Seul. Em determinado momento eu tive que lhe suplicar calma, justamente quando o velocímetro marcava 160 km horários, pouco antes de uma brecada que fez o táxi derrapar na ponte que liga o Aeroporto ao continente. Só assim o motorista diminuiu o seu ímpeto ao volante.

Minutos depois eu já estaria correndo pelo aeroporto, tentando alcançar em tempo o vôo da Lufthansa que me levaria a Frankfurt, primeiro destino no retorno ao Brasil após quase um mês de viagem em solo sul-coreano. Posteriormente, já dentro da aeronave, em seguida a uma decolagem tranqüila, a calma dentro do avião foi interrompida com uma série de alarmes sonoros em seqüência, os quais de pronto me tiraram do estado cataléptico em que me encontrava. Não fosse uma comissária correndo dentro da aeronave em direção ao que me pareceu uma das portas de emergência, talvez o alarme sonoro não tivesse me causado maiores temores. Logo em seguida, mais dois comissários seguiram o mesmo caminho da primeira, todos em direção ao fundo da aeronave.
Meu olhar, já aflito, percorreu todo o avião em busca do restante da tripulação e percebi mais dois comissários-de-bordo correndo em auxílio aos três primeiros, enquanto outro pegava o interfone possivelmente para se comunicar com a cabine de comando, tudo isso ao som ininterrupto de um alarme indicativo que havia algo errado.
Saliente-se que as cenas se intercalaram num átimo que não deve ter durado mais do que 30 segundos.
O alarme seguia ameaçador, não parando de soar rítmica e dolorosamente, enquanto eu me voltava ao mapa de navegação que mostrava a aeronave ainda sobre o inóspito Mar Amarelo. Nesses momentos, a mente resta pródiga em pensamentos desagradáveis, pois logo me lembrei, involuntariamente, do Titanic e a sua cena final, onde vários personagens sucumbiam à hipotermia no oceano gélido.
Ato contínuo, como todo bom agnóstico que se preze, comecei a rezar todos os cânticos, salmos e orações que me lembrava, sem entretanto esquecer de deixar espaço para a irrequieta mente dar conta também de um pequeno resumo do que havia sido a minha existência. Quais acertos, erros? O que mais poderia ter feito? Os abraços esquecidos, os beijos não dados, o adeus não permitido...
A frustração de talvez não poder ter mais tempo nesta existência humana, era pontuada pelo alarme que ainda reinava, ameaçador, ao fundo do imbróglio de pensamentos entrelaçados com a imagem da aeronave sobrevoando um mar congelante de um dezembro taciturno.

Não fosse a mente tão generosa em navegar involuntariamente em lugares e situações insalubres, eu deveria ter recordado uma notícia que havia lido poucos dias antes, em outro vôo, informando a dificuldade que muitos sul-coreanos enfrentavam em vôos internacionais, pelo fato de se recusarem a deixar de fumar a bordo, muitos dos quais haviam sido presos por fazê-lo escondido nos banheiros de aeronaves. Não fosse, igualmente, a aflição do momento, teria percebido também que a aeronave, não obstante o alarme que não parava de soar, estava num curso normal e não demonstrava nenhuma instabilidade. Talvez após um minuto que pareceu uma eternidade, o alarme finalmente parou de reclamar e os comissários retornaram acompanhando um passageiro com um olhar sonso, que havia decidido fumar seu singelo cigarro, escondido em um dos banheiros do avião.

Eu confesso que tive vontade de esmurrá-lo juntamente com os outros passageiros assustados, mas a alegria de saber que tudo estava bem me demoveu da idéia. Não sei nem se o indivíduo teve algum problema ao chegar em Frankfurt, mas o fato de saber-me mais próximo do Brasil, são e salvo, me garantiu um vôo tranqüilo até a Alemanha, absorto em lembranças e pensamentos esperançosos.
Dias depois, após uma breve estadia na Europa, me vejo desembarcando no Aeroporto Internacional Pinto Martins. O sol abrasador e um mormaço indisfarçável me receberam tão logo as portas automáticas do saguão principal cerraram-se às minhas costas. Nunca este calor da Capital do Ceará me pareceu tão simpático e acolhedor...

segunda-feira, dezembro 6

Seoul - O frio tem se mostrado menos ameno. Ontem, assistindo a um jogo da K-League (1a. divisao do campeonato Coreano de Futebol) na cidade proxima de Suwon, quase congelei na temperatura de zero grau.
Fora isso, tudo segue tranquilo aqui do outro lado do mundo. Soh mesmo a saudade a agigantar-se. Para nao dizer que nao falei de flores, hoje devo ir ao Blue Note daqui de Seoul, e afogar um pouco os males da distancia com musica. Blues versus Blues, indeed.
Seoul tem um detalhe alvissareiro que toda grande Cidade reserva: belas modelos brasileiras podem ser vistas em algum bar moderninho, numa noite perdida e fria de dezembro.
Nao obstante, meu coracao estah mesmo eh voltado para o distante Brasil, solo de minha amada, que ateh meus sonhos permeia, em solo estrangeiro.
Eu soh me refugio nas palavras de um acrostico distante no tempo que nao me deixo esquecer:

"
Beleza em seu estado mais puro
Esculpida no corpo de menina em flor
Ao susurro da brisa, caio em teu amor,
Trazendo-me certeza outrora perdida.
Raio, refletes à noite de lua,
Irrompes num açoite minha retina.
Zênite a brilhar a grandeza sua."

Abaixo, uma foto tirada recentemente:


Premiacao da Selecao da K-League, Best Eleven, em Seoul, Coreia (novembro/2004), a qual comparecemos para prestigiar o atacante brasileiro Mota, nosso cliente. Na foto estou ladeado pelo socio Fabio Vieira e por Mota, que na ocasiao foi premiado com a Chuteira de Ouro e artilheiro da Coreia em 2004.

Post Scriptum: Continuo sem uma acentuacao adequada neste teclado laptopiano. Isto, na verdade, eh o que menos importa. E alem disso, pouca coisa...


Porque escrevo

Cada um tem a sua terapia. Há os que correm, pintam, cantam... Minha maior terapia é escrever. Posso ser o que sou, o que nu...