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Um Alarme em Pleno Vôo



Naquele momento, dentro do avião, eu percebia angustiado que o mapa de navegação da aeronave mostrava em seu monitor colorido, que estávamos a cruzar o Mar Amarelo, exatamente no interregno entre as Coréias e a China.

Alguns minutos antes, eu olhava preocupado o velocímetro do táxi que nos levava do hotel ao aeroporto distante. O motorista certamente captara com precisão a minha informação de que estávamos atrasados para nosso vôo, motivo pelo qual dirigia como um louco em direção ao Aeroporto Internacional de Incheon, cuja localização é bastante afastada do centro de Seul. Em determinado momento eu tive que lhe suplicar calma, justamente quando o velocímetro marcava 160 km horários, pouco antes de uma brecada que fez o táxi derrapar na ponte que liga o Aeroporto ao continente. Só assim o motorista diminuiu o seu ímpeto ao volante.

Minutos depois eu já estaria correndo pelo aeroporto, tentando alcançar em tempo o vôo da Lufthansa que me levaria a Frankfurt, primeiro destino no retorno ao Brasil após quase um mês de viagem em solo sul-coreano. Posteriormente, já dentro da aeronave, em seguida a uma decolagem tranqüila, a calma dentro do avião foi interrompida com uma série de alarmes sonoros em seqüência, os quais de pronto me tiraram do estado cataléptico em que me encontrava. Não fosse uma comissária correndo dentro da aeronave em direção ao que me pareceu uma das portas de emergência, talvez o alarme sonoro não tivesse me causado maiores temores. Logo em seguida, mais dois comissários seguiram o mesmo caminho da primeira, todos em direção ao fundo da aeronave.
Meu olhar, já aflito, percorreu todo o avião em busca do restante da tripulação e percebi mais dois comissários-de-bordo correndo em auxílio aos três primeiros, enquanto outro pegava o interfone possivelmente para se comunicar com a cabine de comando, tudo isso ao som ininterrupto de um alarme indicativo que havia algo errado.
Saliente-se que as cenas se intercalaram num átimo que não deve ter durado mais do que 30 segundos.
O alarme seguia ameaçador, não parando de soar rítmica e dolorosamente, enquanto eu me voltava ao mapa de navegação que mostrava a aeronave ainda sobre o inóspito Mar Amarelo. Nesses momentos, a mente resta pródiga em pensamentos desagradáveis, pois logo me lembrei, involuntariamente, do Titanic e a sua cena final, onde vários personagens sucumbiam à hipotermia no oceano gélido.
Ato contínuo, como todo bom agnóstico que se preze, comecei a rezar todos os cânticos, salmos e orações que me lembrava, sem entretanto esquecer de deixar espaço para a irrequieta mente dar conta também de um pequeno resumo do que havia sido a minha existência. Quais acertos, erros? O que mais poderia ter feito? Os abraços esquecidos, os beijos não dados, o adeus não permitido...
A frustração de talvez não poder ter mais tempo nesta existência humana, era pontuada pelo alarme que ainda reinava, ameaçador, ao fundo do imbróglio de pensamentos entrelaçados com a imagem da aeronave sobrevoando um mar congelante de um dezembro taciturno.

Não fosse a mente tão generosa em navegar involuntariamente em lugares e situações insalubres, eu deveria ter recordado uma notícia que havia lido poucos dias antes, em outro vôo, informando a dificuldade que muitos sul-coreanos enfrentavam em vôos internacionais, pelo fato de se recusarem a deixar de fumar a bordo, muitos dos quais haviam sido presos por fazê-lo escondido nos banheiros de aeronaves. Não fosse, igualmente, a aflição do momento, teria percebido também que a aeronave, não obstante o alarme que não parava de soar, estava num curso normal e não demonstrava nenhuma instabilidade. Talvez após um minuto que pareceu uma eternidade, o alarme finalmente parou de reclamar e os comissários retornaram acompanhando um passageiro com um olhar sonso, que havia decidido fumar seu singelo cigarro, escondido em um dos banheiros do avião.

Eu confesso que tive vontade de esmurrá-lo juntamente com os outros passageiros assustados, mas a alegria de saber que tudo estava bem me demoveu da idéia. Não sei nem se o indivíduo teve algum problema ao chegar em Frankfurt, mas o fato de saber-me mais próximo do Brasil, são e salvo, me garantiu um vôo tranqüilo até a Alemanha, absorto em lembranças e pensamentos esperançosos.
Dias depois, após uma breve estadia na Europa, me vejo desembarcando no Aeroporto Internacional Pinto Martins. O sol abrasador e um mormaço indisfarçável me receberam tão logo as portas automáticas do saguão principal cerraram-se às minhas costas. Nunca este calor da Capital do Ceará me pareceu tão simpático e acolhedor...

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