terça-feira, outubro 31

Pais e Filhos - Tudo tem andado muito corrido. O tempo, embora um paradoxo entre o real e o imaginário, consiste numa sábia e pérfida construção que urge, é claro, sufocando o quase inexistente espaço que sobra ao trabalho. É tanto, que já se passaram uns bons anos desde quando fiz uma reflexão semelhante. Lá estava eu, nos idos da década de 90, ouvindo Pais e Filhos na voz saudosa do Renato Russo. E ele, parafraseando, vaticinava:

"...É preciso amar as pessoas como se
Não houvesse amanhã.
Porque se você parar para pensar,
Na verdade não há..."


Confesso que nunca mais fui o mesmo desde quando a ouvi pela primeira vez. Sábias palavras as ditas pelo Renato. Se eu fizer um paralelo daquele dia até hoje, foi tudo uma sequência inesgotável de presente. Muito bem vividos, ainda bem. Uma verdadeira roda-viva, onde o amanhã se permitia apenas como uma ilusória montagem.
Pois bem, os dias, mais ainda, têm passado rápidamente por meus olhos. Eles parecem bólidos, combinados com as atividades diárias estressantes, onde acabamos por nos misturar à intensidade da urgência do tempo. Carpe diem, ou melhor dizendo, colha o dia como se fosse um fruto maduro, prestes a perecer por entre os dedos das nossas mãos se não for devidamente apreciado.

O amanhã ilusório acaba sendo o responsável pelos projetos abortados, sonhos incompletos, amores inacabados, enfim, uma construção metafísica intrigante que nos garante uma falsa inexecução do que é o hoje. A vida, há de ser vívida. E, por fim, vivida intensamente como numa prova de velocidade, batimentos ultrapassando a zona alvo, suor incessante, respiração plena e, acima de tudo, uma mente trabalhando incessantemente com o objetivo de completar a prova, pois a sua (dela, vida) adversária - a morte - é das mais estúpidas coisas que há nesta experiência terrena.

Faço minhas as palavras do Poeta Drummond: "A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade." . A cada dia são mortos, numa silente cumplicidade, tantos beijos, abraços, sonhos...todos amparados na falsa crença de que o amanhã é certo.

Tantos projetos que simplesmente sucumbem à esperança do não-agora...tudo não passa de uma arquitetura intrincada que se for sempre adiada, há de ter o seu epílogo, possivelmente, quando um dia, nos percebermos ainda aguardando um amanhã que não chega, no fim de uma estrada cuja visão embaciada do final só permite voltarmos a cabeça ao seu começo e constatar que tantas variantes foram descartadas por todo o percurso tão longo. E por falar em Pais e Filhos, você já deu um beijo hoje?

sábado, outubro 7

A Lua Por Testemunha - Quando não me encontro imerso entre alfarrábios jurídicos e corredores forenses, os vagos momentos de folga dos últimos meses têm sido pontuados pelo esporte, principalmente quando resolvi me dedicar novamente ao triathlon. Talvez por isso os devaneios poéticos estejam ainda mais raros por estas bandas de cá.

Mesmo assim, a cada passada, braçada ou cadência que mantenho no pedal, eu enxergo poesia. Desde o nascer do sol visto da praia antes da competição, passando pelas gotas de suor a percorrer o meu rosto, até as translúcidas paisagens a entrecortar o labirinto de caminhos percorridos com a bike, tudo é inspirador aos olhos de quem percebe a beleza a fluir ao nosso redor.

O ato de competir consigo mesmo, buscando sempre ultrapassar um limite que não se conhece, é instigante. Em minha curta carreira, coleciono alguns desafiosalcançados. Outros ainda por vir.
Um Homem de Ferro, embora meu coração seja puro músculo.

No intermezzo desta vida, muito treinamento, divididos entre extenuantes e prazerosas pedaladas, corridas e natação, esta última mesmo sendo cansativa tem um quê inegável de relaxante.

Enquanto nado, meu corpo a singrar sozinho por entre mares e mares. A mente solta navega distante enquanto o corpo repete uma cadência que parece ser alimentada pelo som de uma orquestra invisível. Há treinos e treinos, como por exemplo, o desta noite enluarada, a piscina já vazia, apenas a lua por testemunha. Há algo de sublime no esporte.

Porque escrevo

Cada um tem a sua terapia. Há os que correm, pintam, cantam... Minha maior terapia é escrever. Posso ser o que sou, o que nu...