quarta-feira, março 30

Para não dizer que não falei de Flores

Há vários dias estou de volta à rotina do calor desta maravilhosa terra chamada Ceará, cuja estação indefinida me alimenta os sonhos distantes.
"Tempo, tempo tempo, tempo...", vaticina Caetano enquanto os céus derramam-se em chuva por toda Cidade e eu por testemunha nesta noite, solitário. São as Águas de Março a escorrer por nossos corpos enquanto passa o tempo.
Já disse antes por aqui, pois toda grande estória de amor há de ter uma cena inesquecível de chuva. A falta dela, no filme "O Terminal", na cena entre as personagens de Tom Hanks e Catherine Zeta-Jones, em que seu ocaso é justamente a sua afirmação, reforça minha crença.
Após um longo e tenebroso inverno, tornei à escrita de "Praia". O livro, espero, há de ser terminado antes que finde o seu autor, mesmo que esteja a depender da minha infértil mente. Soubesse descrever-lhe o ponto nodal, dizê-lo-ia afirmando tratar-se de uma humilde obra a buscar retratar um Quixote moderno, talvez mais confuso, menos solitário e igualmente apaixonado, a singrar os mares da vida. Aliás, se há mares, eu vos pergunto, que mal há de ter?
Minha poesia pretérita, fazia tempo, não me soava tão atual como agora:

"Amálgama de Formas

Eu te encontro, num instante, em meio à turva multidão.
Nossas palavras mudas. Aperto tua mão sem ver-te inteira.
Colo meu rosto ao teu, ofegantes são as respostas.
Meu amor, emudecido no tempo, teu melodioso arfar.
Nunca repetiremos esse momento. Embora eterno.
Aperto de mãos que pairam no espaço de um quarto.
Os segundos arrastam-se disrítmicamente em torpor.
Corpos que completam-se envoltos numa química única.
Um doce balé pontuado por beijos que deixam marcas.
Ao clímax, perdem-se os nortes de todos os sentidos.
Uma única parte formada por dois lados harmônicos.
Corpos suados desobedecem os comandos, largados.
Olhos cerrados que enxergam mais do que vislumbravam.
O largar-se à cama, olhos fixos, beijos que marcam.
O ir-se em um segundo, para todo o sempre, jamais...


Eu mesmo, numa quente noite de 2002"


Post Scriptum: Eu deixei meu coração em Salamanca, mas ela há de me esperar em em meio às flores que já brotam por lá...

quarta-feira, março 16

Salamanca - Em salamanca a felicidade eh loura, vem vestida em sorrisos e parece deixar todo o lugar em slow-motion. Tem os labios da cor do tinto mais saboroso e de cujo gosto eu nao ouso saber. Seu falar parece um susurro, o cantico dos canticos que suplanta as leis da fisica e se mostra colorido aos meus ouvidos. Em Salamanca, ela vem indumentada em cor-de-rosa e despeja dos seus olhos aos meus uma felicidade que de ha muito nao via.
Antes de chegar aqui, jah na estrada apos partir de Bordeaux, a natureza fez-se perceber em primavera. Um ceu de Monet me espiava o cansaco e um sol abencoado parecia anunciar o que me esperava em Salamanca, enquanto o calor demonstrava voltar a invadir-me o corpo. Soh podia ser o aviso de que eu estava na iminencia de me deparar com a beleza em seu estado mais puro. Vinicius me socorre sempre em parafrase: me perdoem as outras, mas a beleza me foi hoje fundamental.
Acordo agora, o sol jah se poe la fora. Tudo nao passou de um sonho?

domingo, março 13

O Pais da Delicadeza Perdida - Tenho lembrado de Chico Buarque inumeras vezes neste periplo europeu. Algumas por ouvi-lo nas radios ou locais publicos. Outras muitas pela lembranca da Obra de Walter Salles e Nelson Motta onde se destaca a poesia do Chico contrastada com a perda gradual de nossa delicadeza.
Pois errante, eu vejo que ainda nos resta a esperanca. Por onde andei tenho me deparado com exemplos inequivocos de que nossa delicadeza ainda sobrevive incolume, tambem em solos outros. Sem medo de ceder aa pieguice, constatei que nosso contraste com a sisudez estrangeira eh gritante. Somos uma nota dissonante no embrutecimento a grassar pelas bandas de cah e de lah tambem. O Discreto charme brasileiro, aa doce parafrase da obra-prima de Bunuel, eh um sincero abraco em forma de sorriso.
Entre as andancas por varios paises ateh agora, eu destaco a gentileza do conterraneo David, um dedicado cicerone-por-um-dia em Barcelona que tanto nos ajudou a desbravar a intensa Cidade. Nao bastasse, ainda nos abasteceu de musica atraves de dois Cd's gravados por ele proprio que nos aliviou a distancia entre a Cidade Catala e Paris.
Ainda em Barcelona, as dicas de outras duas brasileiras, Rafa e Maristela, que tanto nos ajudaram pelos caminhos daquela Metropole insone.
O frio intenso dos outros dias comecou a arrefecer, mesmo ao trilharmos o caminho do Norte, principalmente ao nos depararmos com a alegria em forma de bracos abertos dos amigos Regis e Guilherme aa nossa espera na estacao de Waterloo, numa Londres que nunca me fora tao acolhedora. A dedicacao em nos propiciar um inesquecivel fim-de-semana nao encontra uma forma aa altura de recompensa-los a delicadeza, que nao seja o desfilar em forma de registro destas bobas palavras neste pergaminio virtual.
Eles todos nos provam que a delicadeza do brasileiro nao estah de todo perdida, ela ainda pode ser encontrada pelos quatro-cantos do mundo, voce pode ateh nao estar a perceber ou escuta-la agora, mas bem ali, naquela mesa de bar, eles estao a cantar as musicas do Cartola, Vincicius, Paulinho da Viola, Chico e tantos outros mestres. Vem regada a cerveja (que seja espanhola, portuguesa, francesa ou mesmo uma inenarravel Guinness), alem olhares incompreensiveis, muita fumaca a confundir-se com o fog londrino, sorrisos em profusao e de vez em quando, algumas lagrimas teimosas a rolar pelos rostos felizes, porem saudosos do nosso Pais.

terça-feira, março 8

Hoje, no seu dia, um acrostico que escrevi no passado para Voce:

¨08 de Março:

Momentos de dor...
Unem-se aos espasmos de luz em vida.
Levas, mesmo sofrida, infindo amor.
Hoje vou compor à tua grandeza,
Em ser mãe, em ser de una beleza,
Reluzindo em cor, uma flor de margarida.¨

P.S.: Cheguei em Paris, apos 12 horas quase ininterruptas ao volante do carro. Frio, neve, saudade...Ao rever Paris, na chegada durante a madrugada, suspeitei avistar uma bela amiga adormecida, uma femea ¨au noir¨ dissonante com o ritmo frenetico da luz do dia. Acho que ela estendeu-me os seus bracos abertos e me pareceu susurrar: vem...

sábado, março 5

As Curvas em minha Estrada - Meu pensamento repousa em ti enquanto percorro os milhares de kilometros a ligar os pontos de partida e chegada no mapa amassado, esquecido no chao do carro. O caminho tem incrustado, alem de muita historia, cenarios de extrema beleza e varios elementos a tornar a viagem menos cansativa.
Enquanto dirijo, solitario, entre paisagens e situacoes poeticas a nortear-me a atencao, placas apontam inumeros caminhos, alguns dos quais me entrecortam o pensamento.
Saudades de Lisboa, Madri e de outras paragens das quais me despedi ha poucos dias. Aqui, nesta Barcelona em ebulicao a fincar um paradoxo gritante com o frio que advem do Mediterraneo, eu soh me vejo a pensar em voce.
Ha algo presente na arquitetura visionaria de Antonio Gaudi a lembrar-me do teu corpo, de cujas curvas eu nao consigo escapar. Nem mesmo quando a estrada jah ficou para tras de ha muito. Uma estranha similitude entre a Arquitetura Sagrada Gaudiana, materializada a ferro e fogo ou talhada em pedra a me instigar o raciocinio, enquanto eu me perco etereo nos tracos inexatos dos teus labirintos.
Eu me contento em te encontrar, assimetrica e furtivamente, nesta Cidade irrequieta cuja beleza translucida me desperta a cada esquina deste solo Catalao. Solo, Catalao. Solo... Talvez eu nao exista mesmo sem voce...

Porque escrevo

Cada um tem a sua terapia. Há os que correm, pintam, cantam... Minha maior terapia é escrever. Posso ser o que sou, o que nu...